Saída de Trump é chance para a paz, por Jeffrey Sachs

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Por Jeffrey D. Sachs, no jornal Valor de 7/1/2019.

A retirada das forças dos Estados Unidos da Síria anunciada pelo presidente Donald Trump foi condenada por democratas e republicanos. Isso diz menos sobre Trump do que sobre a visão tacanha do establishment de política externa americano.

A corrente predominante de ambos os partidos políticos ostenta determinados pressupostos automáticos: o de que os EUA têm de manter presença militar no mundo inteiro a fim de evitar que adversários ocupem o vácuo resultante; o de que o poder militar dos EUA tem o segredo do sucesso da política externa; e o de que os adversários dos EUA são inimigos implacáveis, impermeáveis à diplomacia. A retirada de Trump da Síria pode, na verdade, ser um prelúdio perigoso de uma guerra regional ampliada; mas, com imaginação e diplomacia, a retirada poderá ser uma medida decisiva no caminho de uma paz intangível na região.

O establishment da política externa dos EUA justificou, retoricamente, a presença dos EUA na Síria como parte da guerra ao Estado Islâmico (EI). Com o EI essencialmente derrotado e dispersado, Trump desafiou o establishment a mostrar a que vinha. Mas, repentinamente, o establishment declarou os verdadeiros motivos da presença prolongada dos EUA. A iniciativa de Trump, segundo acusações, daria vantagens geopolíticas a Bashar al-Assad da Síria, a Vladimir Putin da Rússia e a Ali Khamenei, do Irã, ao mesmo tempo em que poria em risco Israel, ao trair os curdos, e ao causar outros males que, essencialmente, não têm relação com o EI.

Essa mudança teve a vantagem de desmascarar os reais objetivos dos EUA para o Oriente Médio, que não são tão obscuros, afinal, a não ser pelo fato de que os analistas de linha convencional, os estrategistas do establishment e membros do Congresso americano não tenderem a mencioná-los em círculos mais refinados. Os EUA não foram à Síria (ou a Iraque, Afeganistão, Iêmen, o Chifre da África, Líbia ou a qualquer outro país da região) devido ao EI. Na verdade, o EI foi mais uma consequência do que uma causa da presença americana. O verdadeiro objetivo foi a hegemonia regional dos EUA; e as consequências foram desastrosas.

A verdade sobre a presença dos EUA na Síria foi raramente contada. Mas pode-se ter certeza de que os EUA não tiveram o menor escrúpulo com relação à democracia na Síria ou em qualquer outro país da região, como demonstra fartamente seu carinhoso abraço à Arábia Saudita. Os EUA resolveram promover uma rebelião para derrubar Bashar al-Assad em 2011 não porque os EUA e aliados como a Arábia Saudita ansiassem pela democracia síria, e sim porque concluíram que Assad era um obstáculo aos interesses dos EUA na região. Os pecados de Assad estavam claros: ele se aliara com a Rússia e recebera apoio do Irã.

Obama assinou um decreto presidencial (Operação Timber Sycamore) que conclamava a CIA a trabalhar em conjunto com a Arábia Saudita (os pagadores) para derrubar Assad. Na tentativa de evitar forte oposição da opinião pública americana a mais uma guerra encabeçada pela CIA com tropas in loco, Obama optou por apoiar jihadistas. Mas a finalidade da operação síria era clara: instalar um regime sírio amigável à Turquia e à Arábia Saudita, negar um aliado à Rússia e expulsar as forças iranianas da Síria.

Mas, como costuma acontecer com operações de troca de regime da CIA, essa fracassou miseravelmente. A Rússia desafiou os EUA a mostrarem que não estavam blefando, apoiou Assad, e o Irã forneceu respaldo essencial também. Nesse ínterim, a guerra entre títeres estimulada pelos EUA e seus aliados gerou mais de 500.000 mortes de combatentes e de civis e a migração de mais de 10 milhões de sírios até agora, além de uma crise de refugiados de grandes proporções na Europa, que continua a abalar a política da União Europeia (UE). Foi aí que uma facção de jihadistas implacáveis rompeu com a outra e criou o EI. Vendo vídeos chocantes de decapitações de prisioneiros americanos e de outras origens, Obama resolveu intervir em 2014 com ataques aéreos e algumas tropas americanas para respaldar um ataque de liderança curda aos redutos do EI.

Não há dúvida de que a retirada unilateral dos EUA poderá criar um desastre ainda maior. A Turquia poderá invadir o norte da Síria para esmagar as forças curdas; a Rússia e a Turquia poderão ver-se diante de um perigoso confronto direto. Israel poderá iniciar uma guerra contra forças iranianas na Síria. Israel e a Arábia Saudita já formaram uma aliança tácita contra o Irã. A guerra síria poderia se expandir para uma Guerra do Oriente Médio plenamente configurada. Tudo isso é plausível.

Mas não é inevitável – longe disso. Uma diplomacia bem-sucedida é possível, se o establishment de política externa dos EUA reconhecer, pelo menos desta vez, que uma diplomacia avalizada pela ONU, e não uma guerra, poderia ser o caminho prudente a tomar. Sob os auspícios do Conselho de Segurança da ONU (com a aprovação essencial de EUA, China, Rússia, França e Reino Unido) poderão ser pactuadas seis medidas para instaurar uma paz mais ampla, em vez de criar uma guerra mais ampla.

Em primeiro lugar, todas as forças externas sairiam da Síria (entre as quais as dos EUA, os jihadistas apoiados pelos sauditas, as forças respaldadas pela Turquia, os soldados russos, e as forças apoiadas pelo Irã). Em segundo lugar, o Conselho de Segurança da ONU apoiaria a soberania do governo sírio sobre todo o país. Em terceiro, o Conselho de Segurança, e as forças de paz da ONU, garantiriam a segurança dos curdos. Em quarto lugar, a Turquia se comprometeria a não invadir a Síria. Em quinto, os EUA aboliriam suas sanções ao Irã. E, em sexto, a ONU captaria recursos para a reconstrução da Síria.

Observe-se que as sanções extraterritoriais dos EUA ao Irã estão de fato prejudicando a economia iraniana, mas estão também separando os EUA do restante do mundo, sem conseguir mudar a política interna iraniana.

Há um quadro ainda maior. O fundamental para a paz no Oriente Médio é a coexistência de turcos, iranianos, árabes e judeus. O maior obstáculo desde a assinatura do Tratado de Versalhes, no fim da Primeira Guerra Mundial, foi a ingerência de grandes potências, como Reino Unido, França, Rússia e EUA, em momentos diferentes. Chegou a hora de permitir que a região resolva seus próprios problemas, sem a ilusão de que potências externas poderão permitir que um ou outro dos contendores evite fazer concessões e sem a gigantesca injeção de armamentos vinda do exterior. É chegada a hora de os atores da região fazerem concessões mútuas e promoverem sua acomodação pacífica sob o guarda-chuva da ONU e da legislação internacional.

Os EUA não foram à Síria (ou Iraque, Afeganistão, Iêmen, o Chifre da África, Líbia ou a qualquer outro país da região) devido ao EI. Na verdade, o EI foi mais uma consequência do que uma causa da presença americana. O verdadeiro objetivo foi a hegemonia regional dos EUA

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