Bolsonaro no inferno e Mourão em pele de cordeiro

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      Jeferson Miola                                      

O general Mourão faz forte investida nos meios de comunicação para vender uma imagem de aparente racionalidade e razoabilidade em contraposição à boçalidade e torpeza do Bolsonaro.

Somente na última semana, entrevistas com o vice foram publicadas em todos os principais jornais de circulação nacional – um contraste e tanto com Jair, que só aceita participar, e raramente, de entrevistas de encomenda nas 2 TVs oficiais do regime, SBT e Record.

Nesta investida, Mourão se esforça em mostrar-se alguém com predicados superiores ao capitão, a começar pela capacidade cognitiva de exprimir raciocínios articulando mais de 140 caracteres de twitter.

O general não perde oportunidade para insinuar que possui a compostura e o preparo que faltam a Bolsonaro. Ele também não se exime de marcar diferença em assuntos candentes produzidos pelos lunáticos do ministério, como no episódio do exílio forçado do Jean Wyllys, no arbítrio que impediu Lula sepultar o irmão, acerca do direito ao aborto, da política externa, da embaixada do Brasil em Jerusalém etc.

Em relação à política econômica ultraliberal, contudo, Mourão concorda com Bolsonaro na delegação de poderes para o Paulo Guedes executar o plano entreguista de transformar  o Brasil no nirvana do rentismo e da orgia financeira internacional.

As limitações políticas e cognitivas do Bolsonaro, ao lado do temperamento complicado dos filhos, são realidades que desde o início preocupam o círculo militar do poder, trazendo dúvidas quanto à conveniência dele seguir como chefe do governo ou ser sacado.

O vexame protagonizado no Fórum Econômico de Davos expôs no estrangeiro a desqualificação do Bolsonaro para o cargo de Presidente do Brasil, aumentando as desconfianças externas quanto ao futuro do governo e do país.

A descoberta das ilicitudes dos Bolsonaro em décadas de política, e dos laços íntimos da família com a gangue Escritório do Crime, cujo patrão é suspeito de ser o autor dos disparos mortais em Marielle e Anderson, trouxe extraordinárias dificuldades para a governabilidade.

O Brasil vive a situação inédita de um presidente em 30 dias perder totalmente a capacidade política, moral e institucional de governar.

Bolsonaro é um tremendo incômodo para o estamento militar. Caso não renuncie, será mantido como um morto-vivo e seus filhos tresloucados afastados do governo. Na hipótese mais drástica, ele é afastado num processo de impeachment.

Mourão age de olho neste cenário, porque herda o cargo em quaisquer dos casos – de renúncia ou afastamento. Por isso ele busca “se vender” como alternativa viável, como a “melhor solução” para a legitimidade do regime.

Este Mourão artificial, entretanto, é um Mourão em pele de cordeiro. Este Mourão está mimetizado de civilizado e moderno.

Apesar dessa investida na imprensa para se repaginar, Mourão não consegue apagar da sua biografia discursos a favor de “autogolpe”, intervenção militar e viradas de mesa.

Este Mourão em pele de cordeiro não deixou de enaltecer a tortura e de homenagear facínoras da estirpe de Brilhante Ustra – a quem, aliás, Mourão considera um herói. E, lembra Mourão, “heróis matam”.

Mourão, por fim, é um general revanchista. Ele defende a revisão da historiografia nacional para caracterizar o regime ditatorial de 1964/1985 não como ditadura, mas como uma “guerra”, necessária para defender o Brasil de “inimigos internos”.

Como profetizou Millôr Fernandes, o Brasil tem um grande passado pela frente.

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