O batismo da falange bolsonarista [*1]

batismo da falange bolsonarista 

Jeferson Miola                        

Analisar os atos pró-Bolsonaro de 26 de maio tomando como métrica a comparação com os protestos oposicionistas de 15 de maio parece insuficiente e impreciso.

O mesmo vale sobre a comparação desses atos com as jornadas que a direita engendrou a partir de 2013 e que foram intensificadas em 2015/2016 na conspiração para derrubar Dilma e instaurar o regime de exceção no país.

O comparativo numérico/quantitativo não permite captar o significado da jornada bolsonarista na sua essência e na sua complexidade. E, além disso, não auxilia na apreensão dos desdobramentos que esta ofensiva poderá ter – e já está tendo – na conjuntura.

 

1. O objetivo primordial dos atos pró-Bolsonaro não foi o de fazer contraponto ao crescimento da resistência democrática e da oposição nas ruas, ainda que esse tenha sido um resultado subsidiário desejado e alcançado.

O objetivo fundamental desta ofensiva foi dar organicidade, reocupar espaço perdido de poder e reforçar a compactação política e ideológica do setor bolsonarista no interior do bloco de poder da extrema-direita.

Os atos ocorreram, enfim, como reação à decomposição da autoridade política e moral do Bolsonaro, cujo desgaste acelerado vinha alimentando, crescentemente, rumores de impeachment no seio do próprio governo e do establishment.

Deste ponto de vista, portanto, o 26 de maio pode ter significado o batismo da falange bolsonarista como resposta à ameaça concreta ao seu símbolo maior, Jair Bolsonaro.

 

2. Os atos pró-Bolsonaro nada tiveram de espontâneo; foram convocados pelo exército de cyber-bolsonaristas. Também foram profissionalmente organizados a partir de uma diretriz estratégica e material unitária: carros de som, bonecos infláveis, uniformes verde-amarelos, faixas, palavras de ordem comuns etc.

Não faltou planejamento nem mesmo na participação do Bolsonaro e da primeira-dama no culto na Igreja Batista Atitude, na zona oeste do Rio, onde cerca de 4 mil fiéis o ouviram. As imagens projetadas no palco do “templo religioso” reproduziam a iconografia bolsonarista.

A infra-estrutura cibernética do bolsonarismo, meio adormecida desde a campanha eleitoral, foi reativada para a difusão de mensagens-chave e da convocatória dos atos.

A pauta de convocação incluía, originalmente, o fechamento do Congresso, o impeachment do STF e pedidos de intervenção e/ou golpe militar. Posteriormente, foi ajustada em torno da defesa da contrarreforma previdenciária, do pacote anticrime do Moro e de ataques a Rodrigo Maia, ao Centrão e ao MBL.

Em que pese Moro ter afirmado que os atos ocorreram “dentro da democracia” [sic], em muitas cidades observaram-se ataques autoritários, criminosos e inconstitucionais às instituições, à imprensa e à liberdade de expressão. Em Minas Gerais, uma horda ensandecida perseguiu repórteres da Rede Globo aos gritos de “lincha!, lincha!, lincha!”. Apesar disso, a Globo não dedicou um único registro ao assunto em nenhum dos seus veículos.

3. Na visão da ex-Presidente Dilma[2], o governo Bolsonaro pode ser entendido como resultante da confluência de pelo menos 4 facções: [1] a facção do clã dos Bolsonaro, composta pela família e entorno miliciano, a ministra Damares, o chanceler Ernesto Araújo, o astrólogo Olavo de Carvalho e seus seguidores fanáticos; [2] a facção vinculada à Lava Jato, cujo expoente é o ministro Sérgio Moro e o Estado Policial montado no ministério da justiça; [3] a facção dos militares, cujo perfil está longe de ser nacionalista e desenvolvimentista, e [4] a facção do grande capital/mercado, encarnado na figura de Paulo Guedes e na política ultraliberal mais selvagem que se tem conhecimento.

É sintomático que, depois de domingo, cessaram as especulações em torno do impeachment e começaram surgir questionamentos quanto à capacidade do vice General Mourão para conduzir o regime ao caminho da superação dos impasses e da profunda crise de dominação.

Bolsonaro ressurgiu dos atos como o grande artífice da agenda do regime, como aquele agente capaz de entregar o objeto de desejo do grande capital – a contrarreforma previdenciária e o aprofundamento das políticas anti-nação, anti-povo e anti-soberania.

Com a convocação dos chefes dos poderes judiciário e legislativo, Bolsonaro recuperou a iniciativa política e a autoridade presidencial.

Em menos de 72 horas depois dos atos, todos os graves escândalos e crimes envolvendo a família e suas conexões com milícias, funcionários fantasmas e laranjas desapareceram do noticiário.

Além disso, Bolsonaro deu ordem unida e enquadrou os partidos do Centrão e os de centro-direita e direita em torno da agenda destrutiva.

E, de sobra, fez o submisso presidente do STF abandonar o princípio da independência dos poderes para assumir-se como guardião jurídico das barbáries do governo contra o povo brasileiro e a Nação.

 

Os atos de 26 de maio abrem um novo capítulo na luta democrática e de reconstrução do país. Em condições ainda mais complexas. A disputa com o regime se acirra também nas ruas.

O bolsonarismo se fortaleceu enquanto facção política com importante apelo social; como uma falange autoritária e com inspiração fascista escolhida para impor o projeto mais destrutivo nunca antes conhecido. Bolsonaro é o depositário de um sentimento pré-existente no subterrâneo da sociedade brasileira, que foi encorajado pelo golpe de 2016 a ocupar a superfície da arena política.

Muitas imagens assombrosas marcaram o 26 de maio, como por exemplo o pelotão de paraquedistas de reserva uniformizados e reproduzindo um TFM [Treinamento Físico Militar] – só faltaram as armas.

A imagem mais aterradora, e que bem simboliza a natureza dantesca da falange bolsonarista e do ideário da extrema-direita no poder, contudo, foi aquela da horda bolsonarista destruindo a faixa afixada no prédio da UFPR em defesa da educação. Uma imagem que substitui milhões de análises.

 

[1] Em alusão à Falange Espanhola Tradicionalista, partido político criado em 1937 pelo “Generalíssimo” Francisco Franco mediante a união dos distintos agrupamentos franquistas. Funcionou como partido único durante toda a ditadura franquista na Espanha, sendo extinto em 1977 no processo de transição ocorrido depois da morte do ditador Francisco Franco. A Falange defendia um ideário autoritário e conservador e tinha inspiração fascista.

[2] Exuberante análise da ex-Presidente Dilma em painel realizado em Porto Alegre pela TV247 em 25/5/2019, por ocasião do 3º encontro de assinantes do Brasil247, cujo vídeo pode ser acessado aqui.

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