Primeiro turno no Chile afunila disputa entre esquerda e extrema-direita

Jeferson Miola                                                          

A eleição presidencial no Chile entrou nos seus dias decisivos. Na 2ª feira passada [15/11] foi realizado o último debate televisivo antes da votação em 1º turno que acontecerá domingo, 21/11.

Transmitido simultaneamente por 5 canais de televisão aberta, o debate com a presença dos 6 postulantes teve uma audiência significativa. Em média, ficou em 38,8 pontos, chegando a atingir o pico de 47,1 pontos.

Os dois candidatos que aparecem nas pesquisas com maiores chances de se enfrentarem no 2º turno – Gabriel Boric/Frente Ampla e José Antonio Kast/Partido Republicano – se confrontaram em vários momentos do debate.

O candidato da extrema-direita também foi, além disso, duramente fustigado pelos demais oponentes, com exceção do situacionista e seu ex-correligionário Sebástian Sichel que, de olho no eleitorado conservador de Kast, foi calculadamente cuidadoso nos ataques.

Não passou despercebido o momento em que Kast ou se contradisse ou simplesmente mentiu sobre pontos impopulares e reacionários do programa de governo.

O debate não deverá alterar a tendência de polarização eleitoral entre o candidato da esquerda e do progressismo chileno e o candidato da extrema-direita.

Gabriel Boric é uma liderança da nova esquerda chilena que emergiu no contexto das revoltas estudantis e populares que vêm sacudindo o país nos últimos 15 anos e cuja dinâmica social desembocou na conquista da Assembleia Constituinte.

Candidato jovem – tem 35 anos de idade –, ele iniciou militância política no movimento estudantil, e está no exercício do segundo mandato de deputado nacional.

A eventual eleição da Frente Ampla deverá inaugurar um ciclo inteiramente novo e com uma correlação social de forças favorável à reconstrução do Chile em bases não-pinochetistas e anti-neoliberais.

José Antonio Kast é um político de extrema-direita com inclinações fascistas. Defensor da “família tradicional”, ele promete revogar o aborto mesmo nos casos de estupro ou de risco à vida da mulher ou do feto: “a mãe deve ter o filho mesmo que nasça anormal, que não tenha desejado, que seja produto de estupro ou que, ao ter o filho, venha a falecer”, sustenta.

Contra a imigração, ele promete restringir fronteiras e punir entidades e organizações que apoiam imigrantes.

Com 55 anos de idade, Katz não esconde as afinidades com Trump e Bolsonaro. Filho de ex-soldado nazista que emigrou da Alemanha nos anos 1950, ele é um defensor da ditadura de Pinochet [1973/1990] e se posiciona abertamente contra o processo constituinte em curso.

Seu irmão Miguel Kast, um Chicago Boy precocemente falecido, foi ministro de Pinochet e partícipe da implantação do neoliberalismo durante a ditadura.

Confirmando as tendências eleitorais, o 1º turno da eleição presidencial no Chile afunila a disputa entre a nova esquerda e a extrema-direita rediviva.

A definição sobre quem ocupará o Palácio de La Moneda a partir de março de 2022 será decidida numa disputa entre um futuro pós-Pinochet e anti-neoliberal para o Chile, ou um passado autoritário, ultraliberal e de retrocessos civilizatórios.

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