Campanha de Bolsonaro investe na “jihad bolsonarista”

Jeferson Miola                             

A campanha de Bolsonaro investe no caminho perigoso da “jihad bolsonarista” – a guerra religiosa –, como parte da guerra total travada contra o ex-presidente Lula.

No sábado de 13 de agosto, na cidade do Rio, Bolsonaro completou a 11ª participação dele em uma Marcha para Jesus somente neste ano de 2022. É uma rotina impressionante de participação de um presidente da República: um evento evangélico a cada 20 dias.

Nas últimas semanas Bolsonaro retomou as articulações com líderes evangélicos mais sectários, fundamentalistas e radicalizados. A campanha bolsonarista também intensificou a presença de Bolsonaro e da primeira-dama Michelle em cerimônias e cultos evangélicos, nos quais não faltam conclamações incendiárias de manipuladores e charlatães.

A participação de Bolsonaro em atividades religiosas, assim como em formaturas e condecorações de policiais e militares, integra a programação principal da sua agenda. Esta singular rotina presidencial serve como uma bússola que sinaliza a estratégia da campanha bolsonarista.

No dia seguinte à Marcha para Jesus em Recife [6/8], o casal presidencial desembarcou com o avião da FAB em Belo Horizonte para participar do culto da Igreja Batista Lagoinha [7/8].

Na pregação aos fiéis, Michelle alertou, em tom messiânico, que o Brasil vive uma “guerra do bem contra o mal”. E disse que antes, durante os governos petistas, o Planalto havia sido “consagrado aos demônios”, mas “hoje [com Bolsonaro], é consagrado ao senhor Jesus”.

A primeira-dama já tinha afirmado [1/8] que nas madrugadas, “quando o Planalto se fecha, eu entro com meus intercessores e oro na cadeira dele. […] Ele [Bolsonaro] é um escolhido de Deus, ele é um escolhido de Deus”.

A pregação odiosa e intolerante do bolsonarismo também mirou as religiões de matriz africana. Nas redes sociais bolsonaristas, usaram uma menção respeitosa de Janja à Umbanda e ao Candomblé para incitar a intolerância, o preconceito e o ódio às religiões de matriz africana.

No primeiro ato oficial de campanha [16/8], Bolsonaro reprisou o discurso da “luta do bem contra o mal” e insinuou que se Lula for eleito, igrejas poderão ser fechadas e cultos proibidos.

Escalada para discursar por último no ato, a primeira-dama suplicou, como se vivesse em uma Teocracia: “que Deus dê sabedoria e discernimento ao nosso povo brasileiro, para que não entregue o nosso País, a nossa nação tão amada por Deus na mão dos nossos inimigos”.

A Frente Inter-religiosa Dom Paulo Evaristo Arns [FIRPEA] repudiou as declarações de Michelle na Igreja Lagoinha, pois ferem o Estado de Direito “e promovem, através da demonização do diferente, a cultura de ódio, colocando em risco a convivência pacífica entre as distintas tradições religiosas e o respeito às diferentes crenças”.

Na visão da FIRPEA, “a primeira-dama repete uma antiga prática excludente, beligerante e preconceituosa” que estimula a violência e a intolerância religiosa. Trata-se, “portanto, [de] um maniqueísmo fundamentalista e perigoso, característico de regimes fascistas”.

A Frente Inter-religiosa lembra, ainda, que “essa mesma estratégia foi utilizada no passado para legitimar perseguições religiosas destrutivas e promotoras de mortes”. O resultado disso, entende a FIRPEA, é a “desagregação da sociedade através do medo”, fator que coloca “em risco a luta internacional de mais de um século por diálogo e cooperação inter-religiosa e ecumênica”.

No vale-tudo contra a democracia e no contexto da guerra total contra Lula, o bolsonarismo investe na intolerância e no ódio religioso – a “jihad bolsonarista” – que aprofunda a divisão e a desunião da sociedade, abrindo as portas para “perseguições religiosas destrutivas e promotoras de mortes”.

Atribui-se ao lendário Leonel Brizola a profecia de que “se os evangélicos entrarem na política, o Brasil irá para o fundo do poço, o país retrocederá vergonhosamente e eles passarão a matar em nome de deus”.

Esta premonição, de autoria discutível, parece muito própria de Brizola, porque mostra como a ficção imita a realidade com absoluta perfeição.

* foto: reprodução

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