As apostas do Lula

Jeferson Miola                                                          

Na entrevista coletiva aos veículos independentes de comunicação [19/1], Lula avançou na explicitação de posições sobre a conjuntura eleitoral e política do país.

Foi a primeira vez que o ex-presidente explicitou de modo transparente seu posicionamento acerca de questões polêmicas e ainda pendentes de debate interno no PT e na esquerda social e partidária.

No que disse ser “uma conversa muito verdadeira entre as pessoas mais significativas da chamada imprensa alternativa do país”, Lula fez questão de deixar claro aspectos centrais da conjuntura:

  1. ele pretende concorrer com uma aliança “mais ampla que o PT,; não mais à esquerda, mas ao centro e, se for o caso, até com setores da centro-direita”. Como sabemos, este critério abarca setores que atuaram na conspiração e no golpe para a derrubada da presidente Dilma em linha com o deep state estadunidense.
    É preciso recordar, neste sentido, a viagem aos EUA, em 18 de abril de 2016, do então presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, senador tucano Aloysio Nunes, no dia seguinte à aprovação do impeachment fraudulento pela Câmara.
    Lula repetiu mais de uma vez que “Ganhar eleição é mais fácil que governar, por isso é preciso fazer alianças”.
    Por suposto, ele faz alusão à base parlamentar/congressual como
    eixo central de sustentação do futuro governo.
    Coerente com esta percepção, nas suas falas ele acenou aos tucanos – “O PSDB do Doria não é o PSDB do Covas, do Serra, do FHC …” – e, também, a Gilberto Kassab, com quem ainda não pôde conversar porque o dono do PSD se recupera da COVID;
  1. como recurso retórico para contornar as restrições da lei eleitoral que proíbe anúncio de candidaturas fora de prazo, Lula repetiu várias vezes que ainda não é candidato.
    Apesar de “ainda não estar definido” para encabeçar a chapa eleitoral, Lula curiosamente já tem, entretanto, uma certeza quanto ao vice que quer emplacar: o ex-governador tucano Geraldo Alckmin.
    É inclusive possível depreender das entrelinhas do discurso do Lula que a filiação do Alckmin ao PSD do Kassab, e não ao PSB, seria do agrado – senão da preferência – dele.
    Com isso, se fecharia uma federação partidária de contorno mais homogêneo e permanente no campo da esquerda; e uma aliança eleitoral ampla, abarcando até a centro-direita;
  1. para Lula, o programa de governo será a garantia de compromisso que cimenta a aliança eleitoral ampla.
    Questionado sobre a hipótese de interrupção do mandato devido ao ambiente de extremismo e pistolagem política da ultradireita, assim como em razão da própria finitude da vida, contextos em que Alckmin assumiria a presidência e poderia passar a executar o “programa tucano”, Lula minimizou tais riscos.
    Primeiro, subestimou a hipótese de atentados políticos no Brasil. Oxalá esta percepção não represente despreocupação e/ou afrouxamento com o esquema de segurança pessoal do ex-presidente diante de um cenário de enorme resistência, ódio e intolerância a ele, sobretudo nos estamentos militares, setores radicalizados da ultradireita e seus tentáculos milicianos.
    Quanto à crença no compromisso de Alckmin e de sua classe social com o programa de governo eleito, o usurpador Temer já evidenciou que da noite para a manhã, como que num passe de mágica, um governo pode mudar radicalmente de rumo. Basta, para isso, construir uma “ponte para o abismo”.
    O programa de governo não tem valor vinculante e, além disso, devido ao sistema político brasileiro criado pelas oligarquias para eternizar o status quo, o PT e a eventual federação partidária de esquerda não teria maioria parlamentar no Congresso para bancar o programa eleito num eventual cenário de Alckmin assumir definitivamente em lugar de Lula.
    Já será alvissareiro se a federação de esquerda conseguir eleger pelo menos 172 deputados/as para bloquear a repetição, pelas oligarquias golpistas, do impeachment farsesco da Dilma.

A circunstância que Lula utilizou para anunciar com primazia suas perspectivas políticas e eleitorais – em entrevista a veículos independentes, cuja audiência preponderante é conformada por público progressista e de esquerda – não deve ser vista como fortuita.

Dali, daquele âmbito “doméstico”, por assim dizer, os anúncios do Lula foram irradiados para toda a mídia hegemônica e entraram no debate político nacional como se “chancelados”, em certo sentido, pelo seu campo político.

Este é o movimento pré-eleitoral mais relevante do Lula. Ele fez as apostas e posicionou as peças do xadrez no tabuleiro. O jogo ainda não está inteiramente jogado, mas Lula adiantou de maneira irreversível várias jogadas. Dificilmente haverá oposição partidária capaz de reverter suas vontades.

Embora não tenha mencionado uma única vez a palavra governabilidade, este vocábulo parece estar subjacente ao raciocínio dele sobre esta longa, incerta e interminável conjuntura. Nos cerca de 18 minutos do discurso introdutório antes das perguntas de jornalistas, Lula destacou sua preocupação com a precariedade da democracia brasileira.

Não imaginava que a gente pudesse retroceder tanto”, disse ele, considerando o cenário atual impensável para quem participou da luta contra a ditadura e das conquistas democráticas e de direitos políticos, civis e humanos no país.

A ameaça à democracia, a fragilidade do sistema político e o temor de ingovernabilidade, embora não tenham sido mencionados textualmente por Lula, parecem conformar, todavia, a moldura na qual ele enquadra a realidade. E não é para menos, porque a democracia está efetivamente submetida a um teste de sobrevivência no Brasil.

Ante isso, Lula prescreve como antídotos aos riscos por ele diagnosticados [i] uma aliança eleitoral ampla, abarcando a centro-direita, [ii] a indicação de Alckmin como vice na chapa como uma espécie de apólice de seguro, [iii] a sustentação congressual/parlamentar com a ajuda do campo conservador e neoliberal, e [iv] um governo moderado, composto por setores neoliberais e historicamente adversários do PT e da esquerda.

Goste-se ou não, esta fórmula poderá – ou não – atender às necessidades do curto prazo para assegurar a travessia até uma conjuntura de maior estabilidade política e de garantias democráticas. Esta é a aposta central do Lula. Mas esta fórmula, em si mesma, não é garantia de que as coisas efetivamente venham a transcorrer dessa maneira.

Na equação apresentada pelo Lula na entrevista, o componente da mobilização popular ativa e permanente como dispositivo de sustentação do governo esteve totalmente ausente. Conforme já comentado, ele centra a sustentação do governo na estratégia congressual/parlamentar.

Não se quer dizer, evidentemente, que a governabilidade baseada na sustentação popular seja, por si mesma, eficaz para evitar golpes; mas a governabilidade congressual/parlamentar tal como se conhece, fundada na fisiologia, corrupção e pragmatismo, mostrou-se fatal para o campo democrático-popular no golpe de 2016.

Lula referiu-se ao povo de modo genérico na entrevista; o povo foi citado enquanto objeto/destinatário do projeto governamental, não como sujeito ativo e central da lógica de sustentação do governo.

As conferências temáticas, por ele citadas, são instrumentos importantes e necessários, mas não substituem o requerimento de uma democracia à quente, de caráter plebiscitário, participativo e, principalmente, de participação popular animada e convocada pelo próprio governo, para a definição, controle e acompanhamento da execução do programa de governo sufragado pelas urnas.

A forma como as oligarquias perpetraram o golpe e derrubaram a presidente Dilma, com incrível e espantosa facilidade, derivou da incapacidade de mobilização de massas e de radicalização da luta social em defesa do projeto democrático e popular.

Naquele processo como hoje, a ultradireita ocupou as ruas do país. Nada indica que será diferente com a derrota do Bolsonaro, pois vivemos um contexto qualitativamente novo e desafiador, de ativismo febril da extrema-direita não somente no esgoto das redes sociais, mas nas ruas, nos legislativos, nas instituições e na dinâmica social.

Lula é um ser político raro e diferenciado, para não dizer único. Isso não significa um ser infalível, condição que ele mesmo rechaçaria.

Na entrevista, Lula disse “eu sei por que criei o PT”. Tomara que a história lhe dê razão neste que é o momento mais crucial da história do país.

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