Bruno e Dom eram alvos da política de terror e devastação do governo militar

Jeferson Miola                                   

Bruno Pereira e Dom Philips foram vítimas das estruturas econômicas criminosas que se expandiram e se infiltraram livremente sob os auspícios do governo militar do Bolsonaro.

O macabro assassinato deles é consequência lógica das escolhas do governo dos generais, que haverão de ser responsabilizados nos tribunais nacionais e internacionais por mais um crime pavoroso contra a humanidade.

Bruno e Dom eram entraves ao genocídio dos povos originários e à devastação das florestas e territórios indígenas, onde florescem com fecunda facilidade a pesca e a caça ilegal, o narcotráfico, o garimpo, a mineração, a pistolagem e o desmatamento.

Em razão disso, Bruno e Dom viraram alvos que algum dia, mais cedo ou mais tarde, deveriam ser exterminados. E este dia finalmente chegou, em 5 de junho, na Terra Indígena do Vale do Javari.

No estudo “Um retrato da FUNAI sob o governo Bolsonaro” o INESC [Instituto de Estudos Socioeconômicos] e a associação Indigenistas Associados [INA] retratam a profunda interface da política anti-indígena da FUNAI com o projeto do governo militar de colonização e exploração econômico-empresarial das terras indígenas e da região amazônica.

As posturas genocidas do governo militar em relação aos indígenas durante a pandemia da COVID integram o mosaico de medidas e práticas criminosas – oficiais e de grupos privados – que atentam contra a existência dos povos originários e contra a preservação climática e ambiental.

O debilitamento e o desmonte da institucionalidade tanto estatal como não-estatal de proteção indígena e ambiental; a redução orçamentária e o corte de verbas; a perseguição a técnicos, o abandono da fiscalização e, ainda, a militarização e o policiamento da gestão da FUNAI, dentre outras questões, conformam um ambiente propício, idealizado pelo próprio governo para a consecução do plano de colonização e dominação da região por modelos econômicos criminosos.

A FUNAI é presidida por um delegado da Polícia Federal. “Quase não se notam experiências de atuação com a política indigenista, ou mesmo com cargos de direção em administração pública. Alguns deles, inclusive, definem-se como ‘pecuaristas’, e não escondem suas alianças com o agronegócio”, conclui o estudo.

Das “39 Coordenações Regionais da Funai, apenas duas têm como chefes titulares servidores do órgão”, sendo que “17 [são] militares, três policiais militares, dois policiais federais e seis profissionais sem vínculo anterior com a administração pública”. Além disso, constata o estudo, “o presidente da Funai, Marcelo Xavier, trocou todos os cargos DAS-4 existentes no órgão, nomeando, também aqui, militares e policiais para grande parte deles”.

O “retrato da FUNAI sob o governo Bolsonaro” deixa evidente a relevância central do aparelhamento e controle da FUNAI para a execução radical do projeto anti-indígena do governo militar.

O problema, porém, é que no meio do caminho deste projeto oficial estavam o indigenista brasileiro Bruno Pereira e o jornalista inglês Dom Philips que, por isso, precisavam ser eliminados.

Bolsonaro não só conhecia, como odiava Dom Philips. Ele chegou a dizer que “esse inglês era mal visto na região, porque fazia muita matéria contra garimpeiros, questão ambiental, então, naquela região lá, que é bastante isolada, muita gente não gostava dele. Ele tinha que ter mais que redobrada atenção para consigo próprio e resolveu fazer uma excursão”, declarou com extrema torpeza o Aberração do Planalto [14/6].

Bolsonaro já esteve quase lado a lado de Dom, apenas com o general Augusto Heleno entre eles. Isso aconteceu numa entrevista coletiva em julho de 2019, quando Dom mencionou o “crescimento assustador dos desmatamentos” e perguntou a Bolsonaro: “Como o senhor Presidente entente e pretende convencer, mostrar para o mundo que realmente o governo tem uma preocupação séria com a preservação da Amazônia?”.

Bolsonaro respondeu com rispidez, raiva e intimidação. “Primeiro você tem que entender que a Amazônia é do Brasil, não é de vocês. A primeira resposta é isso daí”, disse a Dom, complementado que “nenhum país do mundo tem moral pra falar sobre a Amazônia”.

Agressivo, Bolsonaro passou a interpelar Dom: “Para que tanta ONG na Amazônia, já que estão tão preocupados com o meio ambiente e o ser humano? Responda pra mim isso aí, será que o interesse de vocês é com o ser humano ou é outro interesse futuro nessa área?”, insistiu.

Reportagem de Pedro Grigori no Correio Braziliense [14/6] registra que em 26 de setembro de 2021, pouco mais de dois anos depois da entrevista, Bolsonaro “repostou o vídeo da pergunta de Dom Phillips como um exemplo da ‘cobiça de sempre’ pela Amazônia”.

A matéria menciona que Dom “ficou muito abalado com a republicação do vídeo”, e que ele “passou a receber ataques de bolsonaristas” com o assobio do Bolsonaro à matilha fascista.

O indigenista Bruno Pereira, que também era conhecido e também era alvejado pelo governo militar devido à condição de notório inimigo dos agressores dos seus maiores amigos, os indígenas do Vale do Javari, foi tirado do caminho.

Ele foi demitido da Coordenação de Indígenas Isolados e de Recente Contato da FUNAI na gestão do ex-ministro bolsonarista da Justiça Sérgio Moro em outubro de 2019, três meses depois da entrevista na qual o jornalista Dom ficou marcado para morrer.

Alguns dias antes de desaparecer, Bruno alertou que sua vida corria perigo.

A eliminação de Bruno e Dom, “profilática” para o avanço do mundo do crime na Amazônia, também objetiva gerar exemplo atemorizador e intimidar ativismos pró-indígenas e ambientalistas infundindo medo, terror e pânico.

Bruno e Dom eram alvos da política de terror e devastação do governo militar. Agora se tornaram vítimas mortais da guerra de ocupação do Brasil na qual as Forças Armadas atuam como garantidoras do brutal processo de pilhagem e saqueio do país.

* foto: reprodução

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